O Museu Regional de São João del-Rei encontra-se instalado em um casarão de frente para a Praça Severiano de Resende, mais conhecida como Largo Tamandaré. Esse fato não é mero detalhe.  A escolha do local de construção do edifício – que seria, além de residência, uma grande loja – não foi aleatória. Naquela época, meados do século XIX, a praça era a entrada da cidade para quem vinha de São Paulo e do Rio de Janeiro e parada das tropas que traziam as mercadorias. Ao longo do tempo, a praça e o casarão foram exercendo influências mútuas e sendo usados com objetivos diversos. De certa forma, era como se a praça fosse o jardim da residência e ambas fizessem parte de um conjunto.

O Largo passou por diversas modificações ao longo do tempo, porém sua relevância permaneceu. No século XIX, possuía um chafariz que distribuía água aos moradores e viajantes. Servia de parada das tropas que chegavam de outras terras e isso durou até o início do século XX – tempo em que também foi ponto de parada de ônibus intermunicipais. Como se vê, o espaço era estratégico para a cidade.

Esta exposição virtual busca mostrar as transformações pelas quais a praça passou, não só em seus aspectos físicos, mas em seus nomes e na forma como os moradores a ocupavam e usavam de seu espaço. Seus usos foram também se modificando conforme acontecia o mesmo com a sociedade.

Na primeira parte, apresentamos algumas fotos que mostram a sua transformação; na segunda parte, há um texto da professora Schirley Alves, pesquisadora da Universidade Federal de Lavras (UFLA), que fez um estudo para a coleção “Praças da Estrada Real”, da série “Caminhos dos Bandeirantes”.  Por fim, na terceira parte, buscamos mostrar os usos que a população são-joanense fez e faz do Largo Tamandaré.

DO SÉCULO XIX AO XX

Durante o final do século XIX, São João del-Rei ainda preservava elementos do traçado urbano e arquitetônico desenvolvido ao longo daquele período, de quando superava a decadência aurífera, através de sua atividade mercantil que se desenvolvia desde seus primitivos arraiais. O Córrego do Lenheiro sempre representou um elemento fundamental e determinante da expansão do espaço urbano, separando os principais bairros em suas margens opostas, ligados por três pontes: duas pontes de pedra de cantaria do final do século XVIII e início do XIX, e uma mais nova, feita de ferragens de trilhos, em frente à estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas. O centro comercial ainda se situava no núcleo mais antigo, à margem esquerda do córrego, aos pés da Serra do Lenheiro.

O Largo do Tamandaré tem sua formação em um momento que a Câmara da vila intensifica seu controle administrativo, tratando com mais atenção a área que ia desde a Ponte do Rosário até a entrada da rua do Curral (atual Rua Marechal Deodoro). Em 1802 propunham a construção de uma praça para a parada de carros que entravam na vila com mantimentos, que antes paravam na Rua do Tejuco. O local passou a se chamar Largo do Rossio ou Largo da Praia. Na segunda metade do século XIX, a cidade contava com diversos melhoramentos, dentre iluminação pública à base de querosene, chafarizes, e um aqueduto às margens da praia, que alimentava o Chafariz da Legalidade, construído em meados de 1832. Entre as décadas de 1860 e 1880, a cidade possui 10 praças, onde o Largo do Tamandaré figurava como importante ponto comercial, cultural e político.

No período republicano do fim de século, a cidade desconhecia o sistema de encanamento e esgoto. No bojo da implantação de projetos de modernidade, que surgiam com as novas configurações políticas, os preceitos higienistas corroboravam para ideais de modernidade e progresso, que se arrastariam pelo século XX. Combinando técnicas de medicina com a engenharia sanitária, promoveram uma intervenção sistemática no espaço urbano, derrubando traços coloniais ainda remanescentes na cidade. Por esse motivo, a Câmara decretou a destruição dos aquedutos e Chafarizes, em decorrência da substituição por encanamento de ferro fundido, possibilitando o abastecimento domiciliar. Neste panorama, são edificadas as balaustradas e os muros de contenção da chamada Prainha, às margens do Córrego do Lenheiro. Na década de 1910, o Largo do Tamandaré já apresentava um início de tratamento paisagístico, iniciando a definição do espaço ocupado pela praça atualmente.

DÉCADAS DE 1930 E 1940

Durante as décadas de 1930 e 1940 o Largo do Tamandaré continuou sendo uma importante praça comercial na cidade, com lojas e armazéns, além de ponto de chegada e parada das tropas. Foi na década de 1930 que, provavelmente, houve o primeiro ajardinamento da Praça Severiano de Resende, alterando o seu traçado com novos caminhos e largos circulares, onde bancos foram dispostos. Com o aumento da circulação de automóveis a praça foi dividida em dois blocos separados pela abertura de uma rua. Apesar da revitalização, nas fotografias da década de 1940 percebemos como a praça não recebeu as devidas manutenções. Assim, novos projetos tentariam modernizar o espaço nas décadas seguintes.

DÉCADA DE 1950

Em 1951 foram concluídas as obras de reconstrução e restauração do sobrado do Comendador João Antônio da Silva Mourão, construído na metade do século XIX. O Largo Tamandaré ganha, então, visibilidade com o imponente prédio de três pavimentos, com seus belos elementos arquitetônicos e muitas sacadas. O prédio passou a ser sede do recém criado Museu Regional de São João del-Rei. Assim como a casa, a praça também passou por muitas transformações. Talvez para abrir o campo de visão do nobre sobrado, as árvores foram cortadas, e todo o traçado da praça, criado na década de 1930, foi desfeito, desaparecendo com os bancos e jardins.

Foi projetada, então, uma nova praça, bem menor e sem as características da anterior. Do antigo traçado foi mantido apenas, na parte oposta ao Museu, a ponta triangular, ficando parte da área demolida para o trânsito e estacionamento de veículos. A antiga praça, que era usada como área de lazer pela população, perdeu essa serventia. Em 1952, o pelourinho aparece desmontado no meio da praça e é remontado em algum momento antes de 1955. Durante este ano, o espaço foi todo reformulado e, no mês de outubro de 1955, um novo calçamento de paralelepípedos começou a ser colocado.

O FIM DO SÉCULO XX

O Largo Tamandaré foi, desde o início, um local de comércios, com alguns ainda em funcionamento. Com a construção da praça, tornou-se um local de convívio e passeios da população local. Durante a década de 1940, cogitou-se transformar o largo em rodoviária, já que o lugar já era parada de viajantes, tropeiros e visitantes. Mas foi somente a partir da reforma ao longo da década de 1950 que a praça começou a perder espaço, diminuindo sua área de gramado, retirando bancos e abrindo espaço para estacionamentos.

Dessa forma, o largo se adaptava às demandas da cidade, cujo trânsito e o número de veículos crescia, enquanto o de cavaleiros e tropeiros diminuía. A partir dos ano de 1960, constata-se o uso da praça para realização de desfiles e festas juninas, as quais se tornaram tradicionais no local – porém, com os anos, foram transferidas para outros espaços da cidade.



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CRÉDITOS

Planejamento e execução:
ANA MARIA NOGUEIRA OLIVEIRA
BRENDA GUERRA RIBEIRO
ELIANE MARCHESINI ZANATTA
ISABELA CRISTINA MARTINS DE CASTRO
JOÃO VICTOR VILAS BOAS MILITANI
JÉSSICA BENTO
MARIA DE FÁTIMA LOUREIRO DE VASCONCELOS
MARLON DE OLIVEIRA GOUVÊA
SARA CÂNDIDO


Agradecimentos:
ANTÔNIO F. GIAROLA
ARTHUR MARINHO
CÉSAR REIS
INÊS ASSIS MAFRA
MARISE GUIMARÃES NASCIMENTO
PAULO FERREIRA
ROOSVELT MAIRINK DOS SANTOS
SCHIRLEY F. N. S. C. ALVES


Bibliografia:
– ALVES, Schirley Fátima Nogueira da Silva Cavalcante; SOUSA, Rafael de Brito; PAIVA, Patrícia Duarte de Oliveira. História da Praça Severiano de Resende: o Largo do Tamandaré em São João del-Rei. Lavras: Ed. UFLA, 2017.
– CUNHA, Alexandre Mendes Cunha. A Evolução urbana de São João del-Rei. In: VENÂNCIO, Renato Pinto; ARAÚJO, Maria Marta (org.). São João del-Rey, uma cidade no Império. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, Arquivo Público Mineiro, 2007.
– FONSECA, Daniela Flávia Martins. Prescrições sobre higiene na Cidade e na Escola Normal: São João del-Rei, final do século XIX e início do XX. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 2013.
– MALDOS, Roberto. Formação Urbana da Cidade de São João del-Rei. São João del-Rei: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 1997. Disponível em: https://www.ufsj.edu.br/paginas/temposgeraisantigo/n4/artigos/instituto.html (Acesso em 26/11/2020).
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, v. I, II, 2ª edição. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982.
– TAVARES, Denis Pereira. Representações da modernidade de São João del-Rei. Revista de História Regional, v. 18, p. 438-461, 2013.
– XAVIER, Tatiane Paiva. Entre a preservação e o progresso: o palimpsesto urbano na formação da paisagem de São João del-Rei/MG. Belo Horizonte: Escola de Arquitetura da UFMG, 2018.

Fontes iconográficas:
– ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO
– LABORATÓRIO DE FOTODOCUMENTAÇÃO SYLVIO DE VASCONCELLOS (ESCOLA DE ARQUITETURA DA UFMG)
– E. M. BÁRBARA HELIODORA
– E. E. JOÃO DOS SANTOS
– ACERVO PARTICULAR DE DJALMA TARCÍSIO DE ASSIS
– ACERVO PARTICULAR DE MARIA DO CARMO E FERNANDO BRAGA
– ACERVO PARTICULAR DE MARIA DE FÁTIMA LOUREIRO DE VASCONCELOS
– ACERVO PARTICULAR DE MARISE NASCIMENTO GUIMARÃES
– GRUPO A ANTIGA SÃO JOÃO DEL-REI
– MUSEU REGIONAL DE SÃO JOÃO DEL-REI

Realização: